Batalhas Olimpíadas

Elas fugiram da guerra, lutaram contra o preconceito, quebraram estigmas. Conheça a história de atletas que superaram barreiras, além de recorde pessoal.

Desafio: Reconstruir a vida em outro país e conseguir classificação para integrar a equipe De refugiados do COI

Desafio: Reconstruir a vida em outro país e conseguir classificação para integrar a equipe De refugiados do COI

Em 1998, durante a guerra civil congolesa, Yolande Mabika, então com10 anos, foi impedida de voltar para casa e acabou separada da família.

Vagou por ruas cheias de mortos e feridos na região mais atingida pelo conflito, até que foi regatada e levada a um estádio da capital, Kinshasa, que servia de campo de refugiados. Foi lá que Yolande conheceu o judô. Cerca de três anos depois, passou a competir e a ganhar algum dinheiro. ”Cresci sozinha. E com uma saudade enorme de meus pais e irmãos, que não sei nem se ainda estão vivos. A luta foi uma forma de me defender e sobreviver”, contou em entrevista a CLAUDIA.

Yolande se tornou uma das principais judocas de seu país e, pelo esporte, viajou ao Rio de Janeiro em 2013 para o Mundial da modalidade. Mas a experiência não provocou o entusiasmo imaginado-vivia uma rotina de maus-tratos dos treinadores, que incluía suspensão da comida e trancafiamento em uma cela em caso de derrota. Ela, tampouco, queria voltar ao Congo, onde, na prática, a guerra civil nunca havia terminado. Foi aí que decidiu abandonar a delegação. Perambulou pelas ruas do centro do Rio abordando todos os negros que encontrava pelo caminho – achava que pudesse ser africanos também. Dois dias e uma noite ao relento depois, chegou a Brás de Pina, região carioca conhecida por abrigar uma colônia de congoleses. Morando de favor, comendo mal e sobrevivendo de bicos, Yolande quase caiu na indigência. Mas, em abril de 2015, graças à Cáritas, entidade que presta ser auxilio a refugiados, foi levada ao Instituto Reação, do medalhista olímpico Flávio Canto, que promove a inclusão social pelo esporte. Ali, começou a treinar com Geraldo Bernardes, técnico que comandou a equipe brasileira em quatro Jogos Olímpicos, de Seul (1988) a Sydney (2000).

Agora Yolande, 28 anos, não luta mais por sua sobrevivência. Quer fazer parte da primeira delegação de refugiados em uma olimpíada equipe será anunciada neste mês pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). O grupo será formado por sírios, iranianos, congoleses…

que abandonaram seus países fugindo de guerras e perseguições. Os que forem classificados para os Jogos do Rio não representarão as nações em que nasceram, mas os 60 milhões de refugiados espalhados pelo planeta. A passagem do time pelo Maracanã promete levar uma mensagem de esperança ao mundo, que hoje enfrenta a pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra.

Como parte desse esforço do COI, Yolande e outros atletas passaram a receber também ajuda financeira. A rotina de treinos, que acontecem de segunda a sábado, foi uma verdadeira transformação na vida da judoca. ”Ela está melhorando a cada dia. Perdeu 8 quilos, ganhou massa muscular e evoluiu tecnicamente. Além disso, está cada vez mais integrada ao time. Quando chegou, era retraída e agressiva porque temia que a puníssemos como era costume no Congo”, comenta Bernardes. Yolande tem aulas de português, ganhou uma bolsa de estudos de uma universidade carioca e planeja fazer carreira no esporte. Por fim, acaba de se mudar para uma casa só dela. ”O judô é minha vida, o que me fez chegar aqui. Ir para olimpíada pode alterar minha trajetória”, diz ela, que ainda tem esperanças de rever a família – acredita que os Jogos podem ser uma chance, já que serão televisionados no mundo todo.

Desafio: Enfrentar a discriminação que sofre por competir pela equipe americana usando o hijad, véu tradicional da religião mulçumana

Desafio: Enfrentar a discriminação que sofre por competir pela equipe americana usando o hijad, véu tradicional da religião muçulmana

Já classificada, a americana Ibtihaj Muhammad, 30 anos, vai ser a primeira mulher de seu país a competir usando o hijab, o véu que se cobre completamente os cabelos das muçulmanas tradicionais. “Usar o véu com o uniforme de esgrima não é algo em que eu pare para pensar. As pessoas perguntam sobre isso o tempo todo- por exemplo, se não passo calor com ele. Respondo que, mesmo em um dia quente, todo mundo anda vestido. eu não sairia de casa sem ele”, contou a CLAUDIA.

Curiosamente, foi a religião que aproximou Ibtihaj, descendente de africanos nascida e criada nos Estados Unidos, da esgrima. Desde criança, ela e seus quatro irmãos foram estimulados pelos pais a se dedicar aos esportes. Ela praticou Softball, tênis, vôlei e atletismo. À mãe, Denise, cabia adaptar os uniformes para que cobrissem os braços e pernas, de acordo com as regras do islamismo. Quando Ibtihaj tinha 13 anos, as duas viram estudantes praticando esgrima totalmente cobertos. “Minha mãe sugeriu,então, que eu tentasse aquela modalidade”, lembra ela, que se tornou  uma das expoentes do sabre. “Por experiência própria, sei que o esporte dá às meninas um senso de confiança difícil de encontrar em sociedade como a nossa”, defende. A atleta está empenhada em lutar pelas muçulmanas perseguidas por usarem véu. “Devo muito à minha comunidade, às pessoas que se parecem comigo. Tenho que me posicionar contra o ódio e a intolerância que estamos vivendo, e a esgrima é um dos caminhos”. Ibtihaj tem grandes chances de medalhas – ganhou o bronze em dois dos três primeiros campeonatos desta temporada, ajudando a classificar a equipe americana para jogos .

“Quero mostrar que nada deve impediras pessoas de alcançar seus objetivos – raças, religião ou sexo. Tudo é possível com perseverança”,

 

Fonte: Revista Claudia – junho 2016

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